Quem vai a Salvador pela primeira vez costuma chegar com Pelourinho, Elevador Lacerda e Barra anotados no roteiro. Nada errado. O problema é ir embora achando que conheceu a cidade sem entender por que tanta coisa que a torna única está diretamente ligada à presença africana.
Por isso, este roteiro em Salvador segue por outro caminho. O Pelourinho continua nele, claro, mas divide espaço com o Curuzu, o Ilê Aiyê, museus, terreiros e lugares em que essa herança não aparece como lembrança do passado: ela continua acontecendo.
Pelourinho
O Centro Histórico é um bom ponto de partida justamente porque permite perceber várias camadas da cidade em poucas ruas.
No Largo do Pelourinho, conheça a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. A irmandade que deu origem ao templo foi organizada pela população negra durante o período colonial, e a igreja permanece profundamente ligada às tradições afro-brasileiras.
Depois, visite a Casa do Benin. A visita ajuda a conectar Salvador diretamente à África Ocidental sem reduzir essa relação à escravidão.
Inaugurado em 1988, o espaço reúne cerca de 200 peças provenientes do Golfo do Benin, coletadas por Pierre Verger, além de trabalhos ligados à cultura afro-diaspórica. O projeto teve participação de Lina Bo Bardi e nasceu justamente para fortalecer as relações culturais entre Bahia e Benin.
Na mesma região, inclua o MUNCAB, Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira. A proposta aqui já muda um pouco: entram artistas, exposições e narrativas contemporâneas que mostram como a produção negra também está discutindo o Brasil de hoje.
Não precisa atravessar esses lugares como se estivesse cumprindo uma lista. Pare, veja a exposição em cartaz, ande pelo Centro Histórico e deixe uma pausa para comer no meio do caminho.
Curuzu
Se você só conhece o Centro Histórico, é válido reservar algumas horas para Liberdade e Curuzu. Essa provavelmente será a parte mais diferente do roteiro em Salvador.
O bairro é o território do Ilê Aiyê, criado em 1974 e responsável por transformar a estética, a música e a discussão sobre identidade negra no Carnaval baiano.
Mas ir ao Curuzu apenas para fotografar a sede do Ilê seria perder boa parte da experiência.
Existe hoje um roteiro chamado Liberdade-Curuzu Tour – Circuito Sérgio Roberto, feito a pé e acompanhado por guia. O percurso começa na Praça Nelson Mandela e passa pela Feira do Japão, antiga sede do Movimento Negro Unificado, Casa Maria Felipa, espaços religiosos e pelo próprio Ilê Aiyê.
É interessante porque o bairro vai aparecendo pela história de quem vive ali, não apenas por placas turísticas.
Outro detalhe chama atenção: o roteiro oficial registra 16 terreiros de candomblé somente na Rua do Curuzu. A presença religiosa, os salões especializados em cabelos afro, os blocos, as casas culturais e o comércio deixam tudo com uma cara mais própria e especial.
Aqui, vale muito mais fazer uma visita guiada do que tentar reproduzir o percurso sozinho seguindo o GPS.
Quer conhecer um terreiro no roteiro em Salvador?
Os terreiros fazem parte da história e da vida cotidiana de Salvador, e alguns recebem visitantes, mas eles não são atrações convencionais.
A Casa de Oxumarê, na Federação, é um bom exemplo. Considerado um dos terreiros mais antigos da Bahia, sua origem remonta ao final do século XVIII e início do XIX. Atualmente, a comunidade disponibiliza um contato específico para o agendamento de visitas orientadas.
Essa é a melhor maneira de chegar: com a visita combinada.
Durante o encontro, siga aquilo que a comunidade orientar sobre fotografias, roupas e circulação pelos espaços. Afinal, enquanto você está conhecendo um lugar importante da história afro-brasileira, outras pessoas estão ali vivendo sua religião.
Outra possibilidade é procurar os Rolês Afro de Salvador. A cidade possui 11 roteiros afrocentrados, envolvendo história, arte, gastronomia e religiosidade. Um deles, chamado “Força das Águas”, inclui o Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, a Casa de Yemanjá, o acarajé da Dinha e o Largo da Mariquita.
Isso torna a experiência muito mais rica do que simplesmente pesquisar “terreiro para visitar” e aparecer na porta.
Como montar esse roteiro em Salvador?
Se tiver poucos dias, o ideal é organizar os passeios pela região.
Reserve uma parte da viagem para o Centro Histórico, fazendo Pelourinho, Igreja do Rosário dos Pretos, Casa do Benin e MUNCAB no mesmo período.
Em outro momento, vá ao Curuzu e faça o circuito com guia. Não tente encaixá-lo entre duas atrações distantes: são cerca de três horas de passeio e o interessante é justamente conhecer o bairro com calma.
Para a experiência religiosa, escolha um dia em que a comunidade confirme a visita. Depois, você ainda pode aproveitar bairros como Rio Vermelho para jantar ou seguir conhecendo outros espaços ligados à cultura negra.
Como chegar a Salvador de ônibus?
Para quem vem de outra cidade, oferecemos viagens para Salvador que podem ser pesquisadas diretamente pelo nosso site ou aplicativo.
Desde janeiro de 2026, o desembarque rodoviário acontece no novo terminal de Águas Claras, integrado à estação de metrô. Essa conexão facilita bastante a continuação da viagem até outras regiões da capital.
Antes de comprar, compare os horários e veja qual chegada combina melhor com o check-in da hospedagem. Também vale garantir a volta com antecedência, principalmente em feriados e períodos de maior movimento.
Conheça uma Salvador diferente com a Gontijo!
Um bom roteiro em Salvador não precisa excluir os lugares famosos. O que muda é a maneira de passar por eles.
O Pelourinho fica mais interessante depois da Casa do Benin. O Curuzu deixa de ser apenas um nome no mapa quando você conhece o Ilê Aiyê e as histórias do bairro. E até o acarajé ganha outro significado quando você entende a tradição que existe por trás daquele tabuleiro.
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