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A capital da Bahia é daqueles lugares que a gente conhece primeiro pelas fotografias e, quando finalmente chega até eles, percebe que nenhuma imagem dava conta de tudo. Salvador é assim.
O azul da Baía de Todos-os-Santos, o casario histórico, as igrejas, as ladeiras, os sabores da culinária baiana e o movimento das ruas criam uma cidade que parece convidar o viajante a olhar para todos os lados ao mesmo tempo.
E, bem no encontro entre duas partes dessa paisagem, está um dos cartões-postais mais conhecidos da Bahia.
O elevador Lacerda não nasceu exatamente para ser atração turística. Antes das fotos, dos mirantes e dos milhares de visitantes, ele surgiu para resolver um problema bastante concreto dos moradores de Salvador: como vencer, diariamente, o enorme desnível existente entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa?
A resposta atravessou mais de 150 anos e acabou se transformando em parte da identidade soteropolitana. Neste artigo, conheça essa história e aproveite para incluir uma das experiências mais tradicionais de Salvador no seu próximo roteiro.
Acompanhe a leitura!
Para entender a construção, é preciso primeiro imaginar Salvador sem essa ligação. De modo que, a própria geografia da cidade dificultava o deslocamento entre a parte baixa, próxima ao porto, e a parte alta.
Durante muito tempo, as pessoas precisavam enfrentar ladeiras e grandes escadarias, enquanto guindastes eram utilizados para transportar cargas entre os diferentes níveis da cidade. Foi nesse contexto que surgiu uma solução bastante ousada para o século XIX.
As obras começaram em 1869 e a inauguração aconteceu em 8 de dezembro de 1873, data em que também é celebrada Nossa Senhora da Conceição da Praia. Naquele momento, a estrutura tinha aproximadamente 63 metros de altura, duas cabines e utilizava um sistema hidráulico.
Seu primeiro nome, inclusive, era Elevador Hidráulico da Conceição. O equipamento também ganhou o curioso apelido de Elevador do Parafuso, uma referência ao mecanismo em espiral utilizado para movimentar as cabines.
O nome pelo qual o conhecemos atualmente só seria adotado posteriormente. Continue a leitura e fique por dentro.
Por trás do projeto estava o empresário Antônio de Lacerda, nascido em 1834. Ele também esteve ligado à Companhia de Transportes Urbanos, responsável por uma das iniciativas pioneiras de transporte ferroviário urbano de Salvador.
O projeto contou com a participação de seu irmão, o engenheiro Augusto Frederico de Lacerda, e com recursos de seu pai, Antônio Francisco de Lacerda. Os irmãos chegaram a estudar engenharia no Rensselaer Polytechnic Institute, nos Estados Unidos.
Em 21 de julho de 1896, o equipamento passou a carregar oficialmente o nome de Antônio de Lacerda.
A construção se tornaria muito maior do que uma solução de mobilidade. Com o passar das décadas, ela passaria a representar também a capacidade de Salvador de adaptar sua infraestrutura a uma geografia tão particular.
Basta chegar ao centro da capital baiana para perceber como essa função continua atual: moradores, trabalhadores e visitantes seguem utilizando a ligação para circular entre duas áreas fundamentais da cidade.
Quem observa sua aparência atual talvez não imagine quantas transformações ocorreram desde a inauguração.
Uma das primeiras grandes mudanças aconteceu no início do século XX. Em 1906, o sistema passou pelo processo de eletrificação, substituindo o funcionamento hidráulico. Pouco depois, o transporte voltou a operar já modernizado.
Mas a transformação mais marcante viria algumas décadas depois. Entre o final dos anos 1920 e o início da década de 1930, uma ampla reforma modificou sua estrutura. O projeto envolveu os arquitetos Fleming Thiesen e Adalberto Szilard e contou com participação da empresa Otis.
Uma segunda torre foi acrescentada, assim como mais duas cabines. Uma ponte de aço passou a conectar as estruturas, formando aquela silhueta que hoje aparece em inúmeras fotografias de Salvador.
Com as mudanças, o conjunto chegou aos atuais 72 metros de altura – algo comparável a um edifício de cerca de 24 andares.
Nas décadas seguintes, outras modernizações ocorreram. Em 1961, por exemplo, novas cabines foram inauguradas, ampliando a capacidade de transporte. Já em 2002, uma restauração trouxe melhorias como iluminação noturna e elementos que valorizam ainda mais sua relação com a paisagem ao redor.
Quando foi inaugurado, no século XIX, o elevador Lacerda era uma obra de engenharia impressionante. A estrutura é apontada como uma das pioneiras no mundo no uso de elevadores como transporte público urbano e, à época, chamou atenção também por sua altura.
Sua relevância histórica foi reconhecida oficialmente: em 2006, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou seu tombamento.
O verdadeiro encanto está na paisagem que se forma ao redor dele. De um lado, está a parte histórica da cidade. Do outro, a Baía de Todos-os-Santos se abre diante do visitante, com embarcações, construções antigas e o movimento da Cidade Baixa compondo a vista.
É um daqueles lugares em que alguns minutos facilmente se transformam em meia hora porque sempre surge mais um detalhe para observar, ou mais uma fotografia para fazer.
A localização ajuda a transformar a visita em ponto de partida para um ótimo roteiro a pé pelo centro histórico.
Na Cidade Baixa está a Praça Cairu, onde fica o famoso Mercado Modelo. O espaço é uma parada clássica para quem deseja conhecer o artesanato baiano, procurar lembranças da viagem e circular por uma das áreas mais conhecidas da região portuária.
Na parte alta, o visitante chega à Praça Tomé de Sousa, cercada por importantes edifícios públicos, como a Prefeitura de Salvador, a Câmara Municipal e o Palácio Rio Branco.
E vale continuar caminhando. O Pelourinho está a poucos minutos dali e reúne igrejas, museus, restaurantes, música e construções históricas que ajudam a contar diferentes períodos da formação da cidade.
Por isso, uma boa ideia é reservar parte do dia para explorar toda essa região com calma. Você pode começar pela Cidade Baixa, conhecer o Mercado Modelo, fazer a travessia e seguir em direção ao Centro Histórico.
Quando o fim da tarde se aproxima, Salvador ainda costuma entregar um presente extra: a luz dourada refletida sobre a baía.
Uma construção com mais de um século naturalmente acumula algumas histórias curiosas.
Nos primeiros anos de funcionamento, por exemplo, os passageiros precisavam ser pesados antes de entrar nas cabines para que o limite permitido pelo equipamento fosse respeitado.
A estrutura original tinha somente duas cabines. Atualmente, são quatro, resultado das ampliações realizadas durante sua história.
Além disso, é interessante pensar na dimensão da obra a partir da própria paisagem. São 72 metros separando seus extremos. Para o turista que atravessa essa distância rapidamente, talvez seja difícil imaginar como era fazer esse percurso antes da construção.
Mais do que marcar um ponto no mapa, visitar o local permite compreender um pouco da relação entre relevo, mobilidade e desenvolvimento urbano de Salvador.
Aliás, essa talvez seja uma das melhores características de viajar: perceber que aquilo que hoje parece apenas parte da paisagem guarda histórias de outras épocas.
Salvador tem praias, sabores, música, religiosidade, arquitetura e uma história que aparece em praticamente cada esquina. Entre tantas atrações, conhecer o elevador Lacerda pode ser apenas o começo de uma viagem que passa pelo Pelourinho, Mercado Modelo, igrejas históricas, museus, praias e tantas outras paisagens da capital baiana.
Se essa história já despertou aquela vontade de abrir o calendário e começar a planejar alguns dias na Bahia, o próximo passo é super fácil.
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Escolha a melhor data, reserve seu assento e comece a imaginar a chegada à Bahia. Porque algumas histórias são interessantes de ler. Outras ficam muito melhores quando você pode atravessá-las pessoalmente.










